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Brasil tem lítio e tecnologia, mas ainda precisa vencer desafio para produzir baterias de carros elétricos

A indústria automotiva brasileira começa a avançar na cadeia de baterias, com iniciativas de empresas e centros de pesquisa, enquanto a expansão dos veículos eletrificados aumenta a demanda por componentes nacionais. O próximo passo é superar gargalos de escala, custo e estrutura industrial para tornar essa produção economicamente viável.

Foto de uma pessoa mexendo em bateria de carros elétricos
Foto: divulgação — Notícias do mercado automotivo
Índice
  1. O Brasil já consegue produzir baterias?
  2. O problema não é falta de lítio
  3. A tecnologia brasileira está avançando
  4. O grande desafio é fazer a conta fechar
  5. Carros elétricos podem ajudar a destravar essa indústria
  6. Brasil tenta avançar do minério para a bateria
  7. O que falta para o Brasil produzir baterias de carros elétricos?
  8. Leia também
  9. Fique um passo à frente das notícias

O Brasil tem matéria-prima, empresas capacitadas e projetos em andamento para produzir baterias de carros elétricos, mas ainda enfrenta dificuldades para transformar essa capacidade em uma cadeia industrial competitiva e de grande escala. A avaliação foi apresentada por representantes do setor automotivo durante o Summit Futuro da Mobilidade 2026, e divulgado pelo portal Autoesporte.

O cenário começou a mudar de forma mais concreta em 2026. A WEG, por exemplo, produziu em Jaraguá do Sul (SC) a primeira célula prismática de fosfato de ferro-lítio (LFP) brasileira. A empresa já atua na montagem de módulos e packs de baterias, mas ainda não decidiu se vai avançar para a produção comercial de células.

O movimento ocorre justamente quando a indústria automotiva brasileira começa a receber mais modelos eletrificados e novas fábricas de montadoras chinesas. Para os fornecedores nacionais, surge uma oportunidade de participar dessa cadeia. Ao mesmo tempo, existe uma dificuldade: competir com fabricantes estrangeiros que já produzem baterias em volumes muito maiores.

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O Brasil já consegue produzir baterias?

Sim, mas é preciso separar as diferentes etapas que formam uma bateria.

Uma bateria de carro elétrico é composta por células, que são agrupadas em módulos e depois integradas em um conjunto maior, chamado de pack. É esse conjunto que vai para o veículo.

O Brasil já possui empresas que atuam na montagem desses sistemas. A WEG, por exemplo, fabrica packs de baterias no país e avançou recentemente para a produção experimental de uma célula prismática LFP.

O ponto de maior dificuldade está justamente na célula.

Hoje, boa parte das células utilizadas pela indústria mundial é produzida na Ásia, especialmente na China. No caso brasileiro, empresas que já montam baterias ainda dependem da importação desse componente para determinadas aplicações.

É por isso que dizer que o Brasil simplesmente “não fabrica baterias” não conta toda a história. O país já avançou em algumas etapas, mas ainda não possui uma cadeia nacional completa e competitiva.

O problema não é falta de lítio

Um dos principais argumentos levantados na discussão recente sobre a produção nacional é justamente a disponibilidade de matéria-prima.

O Brasil possui reservas e produção de minerais importantes para a cadeia das baterias, entre eles o lítio. Durante o Summit Futuro da Mobilidade 2026, Vinícius Alvarenga, CEO da Companhia Brasileira de Lítio (CBL), afirmou que a disponibilidade de materiais críticos não seria uma limitação para o país atender à futura demanda da indústria.

O desafio começa depois da mineração.

Para chegar a uma bateria, os minerais precisam passar por diferentes processos de beneficiamento e transformação até se tornarem materiais adequados para a fabricação das células. Depois vêm etapas como produção dos eletrodos, montagem, formação, testes e controle de qualidade.

O próprio projeto nacional coordenado pelo SENAI para desenvolvimento de baterias de íons de lítio trabalha justamente nessa cadeia. A iniciativa prevê uma linha pré-industrial para produção de células cilíndricas e prismáticas e utiliza, quando possível, insumos nacionais.

Portanto, ter lítio é uma vantagem, mas não resolve sozinho o problema da fabricação de baterias.

Foto de uma bateria de carro elétrico da honda

A tecnologia brasileira está avançando

Também não é correto dizer que o Brasil não possui conhecimento para fabricar células.

O SENAI mantém um projeto estruturante de R$ 68,6 milhões para desenvolver baterias de íons de lítio nacionais. O programa prevê a criação de uma linha pré-industrial, produção de lotes pioneiros e desenvolvimento de células nas químicas LFP e NMC.

O projeto entrou em uma nova fase em 2026. A previsão é concluir a estrutura da planta semiindustrial em dezembro deste ano e iniciar sua operação em 2027. A iniciativa envolve empresas e instituições como WEG, Stellantis, Volkswagen, Marcopolo, Petrobras e Grupo Moura.

A WEG também deu um passo importante ao produzir a primeira célula prismática LFP brasileira. O avanço demonstra que existe capacidade para desenvolver a tecnologia no país, mas ainda não significa que a produção comercial em larga escala esteja consolidada.

O grande desafio é fazer a conta fechar

É aqui que entra um dos principais obstáculos para a produção nacional.

Uma fábrica de células exige investimentos elevados e precisa produzir grandes volumes para diluir seus custos. Ao mesmo tempo, a empresa precisa ter compradores suficientes para justificar a construção e operação da unidade.

Segundo Valter Luiz Knihs, diretor de engenharia e comercial de e-mobility e baterias da WEG, a demanda é um dos fatores que precisam avançar para viabilizar novos investimentos. A companhia ainda não decidiu se produzirá células comercialmente ou se continuará adquirindo o componente de fornecedores.

A escala internacional torna essa equação ainda mais complicada.

A China construiu uma indústria de baterias muito maior e consolidada, enquanto projetos em outros mercados enfrentaram dificuldades para alcançar a mesma competitividade. Para uma empresa brasileira que está começando agora, disputar preço com fabricantes que já operam em grande escala é um desafio adicional.

Por isso, a discussão sobre baterias no Brasil envolve muito mais do que tecnologia.

É preciso haver demanda, escala, investimento e uma cadeia de fornecedores capaz de sustentar a produção.

Carros elétricos podem ajudar a destravar essa indústria

O crescimento da produção de veículos eletrificados no Brasil é uma das peças dessa equação.

Montadoras chinesas vêm ampliando sua presença no país e também trabalham na nacionalização de componentes. Segundo representantes do setor, fornecedores brasileiros já começaram a substituir determinados itens importados por peças produzidas localmente.

Esse movimento pode aumentar a demanda por componentes nacionais e criar condições para que novas etapas da cadeia sejam desenvolvidas no Brasil.

Mas existe uma diferença importante entre produzir veículos eletrificados no país e produzir todos os seus componentes.

Uma montadora pode instalar uma fábrica e importar determinados sistemas. Para que a indústria nacional avance de forma mais profunda, é necessário que fornecedores também tenham volume e condições econômicas para investir.

É esse processo que o setor começa a discutir agora.

Foto de uma pessoa mexendo em uma pequena bateria de carro elétrico

Brasil tenta avançar do minério para a bateria

A produção de baterias também faz parte de uma discussão mais ampla sobre minerais críticos e estratégicos.

Em setembro de 2026, o governo federal sancionou a Lei nº 15.506/2026, que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A legislação busca estimular o beneficiamento e a transformação desses recursos no país, com foco em cadeias de maior valor agregado.

A lógica é aumentar a participação brasileira nas etapas que vêm depois da extração.

No caso das baterias, isso significa tentar avançar de uma cadeia concentrada na mineração para outra que inclua processamento, produção de materiais, fabricação de células e montagem.

O potencial existe. O que ainda precisa ser construído é a escala industrial capaz de tornar essa cadeia competitiva.

O que falta para o Brasil produzir baterias de carros elétricos?

O cenário atual mostra que não existe um único fator impedindo o Brasil de produzir baterias.

O país já possui:

  • reservas e produção de minerais importantes;
  • empresas com conhecimento em eletrificação;
  • capacidade de montagem de módulos e packs;
  • projetos de desenvolvimento de células;
  • instituições de pesquisa e formação profissional;
  • uma indústria automotiva que começa a produzir mais veículos eletrificados.

Ao mesmo tempo, ainda precisa avançar em:

  • processamento nacional de matérias-primas;
  • produção de componentes das células;
  • escala industrial;
  • redução dos custos;
  • formação de fornecedores especializados;
  • demanda suficiente para sustentar investimentos;
  • competitividade diante dos fabricantes estrangeiros.

Por isso, a resposta para a pergunta sobre por que o Brasil ainda não produz baterias de carros elétricos em grande escala não está simplesmente na falta de tecnologia ou de lítio.

O principal desafio é transformar os recursos e conhecimentos que o país já possui em uma cadeia industrial completa, competitiva e capaz de produzir células em escala.

Os primeiros passos já estão acontecendo. O projeto do SENAI prevê a produção de lotes de células nacionais em escala pré-industrial a partir de 2027, enquanto empresas como a WEG avançam no desenvolvimento de suas próprias tecnologias.

O que ainda não está definido é até onde essa produção nacional conseguirá avançar e quanto tempo será necessário para que ela alcance escala comercial.

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